Waking Life na Coronacena

É bastante provável que mais pessoas tenham ficado felizes com a mudança de calendário este ano do que nas últimas décadas. Dito de ânimo leve, foi um ano esquisito. Os cientistas encontraram provas de possível vida microbiana em Marte e água na Lua, o Kanye West não só concorreu à presidência, como foi apoiado por Elon Musk; uma enorme quantidade de nitrato de amónio causou uma explosão devastadora em Beirute, incêndios florestais deixaram grande parte da Austrália em cinzas, o escalar da guerra de Nagorno-Karabakh passou praticamente despercebida, David Attenborough entrou no Instagram, depois saiu, e provavelmente já não passávamos tanto tempo a discutir vacinas desde a altura em que foram inventadas. 

Entretanto, as discotecas fecharam um pouco por todo o mundo, a maioria delas indefinidamente, e quase todos os festivais foram confrontados com um ano em branco. No entanto, as coisas têm estado bastante agitadas aqui pelo Waking Life e damos por nós a pensar que todxs vocês se devem questionar: “se não há festival, então o que é que esta malta faz da vida?”.

A maioria da equipa do Waking Life tem a sorte de ter outros trabalhos, por isso conseguiram concentrar-se neles, ao mesmo tempo que se aventuravam em cozinhados de alta competição e geriam as suas alterações de humor. Para outrxs tantxs o Waking Life é um compromisso a tempo inteiro, pelo que tiveram realmente de mudar de velocidade quando confrontados com a impossibilidade de um encontro físico em plena pandemia.

A 23 de abril enviámos a todxs vós uma carta de amor, na qual escrevemos: “Não podíamos prever esta pandemia, mas juntos podemos escolher como responder-lhe. Esta é uma oportunidade para inverter o guião sobre como nos conectamos, como encontramos um rumo, como vivenciamos a nossa casa, como criamos, partilhamos e experimentamos com a arte. Podemos aprender a viajar com os olhos fechados e estar uns com os outros de formas que ainda não havíamos imaginado.”

Para viver algumas dessas ambições criámos o The Space Between, uma série de eventos, atividades e exposições semi-físicas, semi-virtuais e semi-subliminares, para manter a nossa comunidade conectada e continuar as conversas e a expressão artística num contexto de distância social (um relato mais aprofundado desta viagem está para breve). A acompanhar esta oferta alternativa estava a nossa campanha de doação, fruto do arrombo que as nossas finanças sofreram. Com o generoso apoio de todxs, pudemos recuperar uma parte substancial do que perdemos.

O Waking Life é mais do que o festival, é um projeto comunitário multidimensional, por isso a interligação entre lugar, comunidade, cultura, solo, sol, água, ar, viver, trabalhar e sonhar depende de estar no local durante todo o ano e a Covid foi o catalisador que transformou intenção em realidade. Assim, xs primeirxs membros da equipa mudaram-se para o terreno do Waking Life e lá trabalharam durante todo o Verão, utilizando a Casa Marmelada como quartel-general. Organizámos duas semanas de voluntariado em que transformámos uma casinha abandonada num lar e, em paralelo, levamos a cabo uma limpeza geral ao terreno. 

Desde março, foi a primeira vez que tivemos algum espaço para fazer uma pausa e refletir. Começando pelo período de total incerteza, para depois entrar no primeiro confinamento, perceber que o Waking Life não poderia acontecer, angariar fundos e realizar um programa alternativo semi-digital, enfrentar a saudade e toda a excitação acumuladada da montagem e do festival que nunca se concretizou, engarrafar algumas destas emoções, desenraizar para enraizar de novo numa vida no campo, enquanto a maioria dxs amigxs que trabalham em eventos, artes e outras áreas da cultura lidavam com condições de trabalho muito precárias, tentando estar lá umas para os outros, mas cada uma lidando com as suas próprias lutas e, sem darmos por ela, um segundo confinamento – tudo isto tem sido um processo absurdamente longo mas, no entanto, ainda nos consideramos imensamente privilegiados em comparação com o que estamos a testemunhar no palco global. 

No nosso microcosmo, contudo, a limpeza do terreno tinha sido concluída, incluindo a remoção de estruturas instáveis, de carcaças de palcos a infra-estruturas de madeira periclitantes, bem como um milhão de pequenas coisas que constituem a reorganização do espaço. A pequena casa já nos começa a ser familiar e o nosso objetivo é iniciar o programa de voluntariado e os primeiros workshops e residências artísticas já no próximo outono. Além disso, estão a ser dados os primeiros passos do design de permacultura do local, que incluirá uma proposta de reflorestação da totalidade do recinto, começando com a zona de campismo. Mais sombra e verde à vista!  

Terá o Waking Life lugar este ano? A verdade é que ainda não o podemos dizer. Mas estamos a trabalhar num plano, em contexto de Covid-19, com vários cenários prontos para serem postos em prática assim que tivermos informações mais detalhadas. Em muitos aspetos, 2020 foi um campo de treino involuntário para o exercício da paciência e da incerteza, por isso vamos tentar implementar o que aprendemos neste novo ano. O que podemos prometer é que vamos manter-nos ligados, passar mais algum tempo a elaborar histórias e a conceber um plano B entusiasmante, mantendo-nos vigilantes e atualizados sobre novas políticas e legislação, de modo a que saibam como o Waking Life 2021 irá fluir, dependendo de onde as marés nos levarem… 

 
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Aos subscritores da mailing list do Waking Life – incluindo todos os portadores de bilhetes 2020 – receberão em breve um e-mail com mais informações sobre o que sabemos, o que não sabemos, e um calendário geral de tomada de decisões para as próximas semanas.